Bula informativa
O que todo mundo precisa saber antes de tomar qualquer remédio por conta própria
- Nome do projeto
- Pró Saúde — Riscos da Automedicação
- Natureza
- Campanha educativa (Projeto de Extensão Universitária)
- Componente curricular
- Anestesiologia e Terapêutica Farmacológica Odontológica
- Instituição
- Universidade Estácio de Sá — Campus Recreio, Rio de Janeiro
- Ano letivo
- 2026
- Uso indicado
- Ações comunitárias e apresentação acadêmica
Para que serve este alerta?
Este material foi desenvolvido para informar a população sobre os riscos de tomar qualquer medicamento por conta própria, sem avaliação de um profissional habilitado — prática conhecida como automedicação. É um hábito extremamente comum no Brasil e, embora pareça inofensivo, suas consequências vão muito além do alívio momentâneo de um sintoma: envolvem intoxicações, resistência bacteriana, mascaramento de doenças graves, impacto ambiental e, em casos extremos, risco de morte.
O que é automedicação e por que ela é tão comum no Brasil?
Os números variam conforme o método de pesquisa: de 16,1% (quem se automedica regularmente) a 80% (quem já se automedicou alguma vez na vida)16. Chama atenção que, entre universitários da área da saúde, o índice chegue a 89%1 — mostrando que nem o conhecimento técnico afasta o hábito. A prática é reforçada pelo acesso fácil a medicamentos isentos de prescrição, pelo custo e pela demora de uma consulta, pela cultura popular do "remédio caseiro" e por informações incompletas encontradas na internet. Segundo a OMS, cerca de 50% dos medicamentos no mundo são prescritos, dispensados ou vendidos de forma inadequada6.
Que medicamentos as pessoas mais usam por conta própria — e quais os riscos de cada um?
Analgésicos e antitérmicos (paracetamol, dipirona) respondem por 30% a 50% dos casos de automedicação1. O paracetamol é transformado no fígado em um subproduto tóxico (NAPQI); em doses acima de 10 g a 15 g em adultos — ou 150 mg/kg em crianças — as defesas naturais do organismo se esgotam e o risco de insuficiência hepática aumenta muito6.
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) estão presentes em 35% dos casos1 e podem causar sangramento gastrointestinal e insuficiência renal aguda. Uma metanálise de 138 estudos mostrou aumento de 42% no risco de eventos cardiovasculares graves e de 86% no risco de infarto do miocárdio entre usuários de anti-inflamatórios seletivos7.
Antibióticos são usados por conta própria em cerca de 4% dos casos1, mesmo com a venda exigindo retenção de receita desde 20112. O uso indevido é uma das principais causas da resistência bacteriana: hoje, 1 em cada 6 infecções bacterianas no mundo já resiste a antibióticos, e a resistência cresceu mais de 40% entre 2018 e 2023 nas combinações monitoradas pela OMS5.
Benzodiazepínicos e outros psicotrópicos usados sem orientação estão associados a dependência física e psicológica, além de sedação excessiva quando combinados a álcool ou outros depressores do sistema nervoso central1.
Quem corre risco redobrado ao se automedicar?
- Gestantes;
- Crianças, que toleram doses muito menores antes de atingir níveis tóxicos;
- Idosos em uso de múltiplos medicamentos (polifarmácia) — o principal fator de risco por trás das internações acima8;
- Pacientes em uso de anticoagulantes, anti-hipertensivos, antidepressivos ou inibidores da MAO.
Entre idosos, a automedicação combinada à polifarmácia e ao uso de medicamentos potencialmente inadequados (critérios de Beers) eleva o risco de intoxicação justamente por analgésicos, antitérmicos e fármacos do sistema nervoso central — as classes mais envolvidas nessas internações8.
Interações medicamentosas perigosas
Muitos medicamentos de uso contínuo interagem com remédios tomados por conta própria. Os AINEs aumentam o risco de sangramento quando associados a anticoagulantes; combinações com álcool ou outros anti-inflamatórios agravam ainda mais esse risco4. Um exemplo do consultório odontológico: a adrenalina presente nos anestésicos locais tem seu efeito potencializado por antidepressivos tricíclicos e inibidores da MAO4 — por isso uma anamnese completa, considerando até remédios "de farmácia" e fitoterápicos, é indispensável antes de qualquer procedimento, odontológico ou não.
Quais os males que a automedicação pode causar à saúde pública?
Além da intoxicação, os riscos documentados incluem resistência bacteriana pelo uso indevido de antibióticos, mascaramento de quadros infecciosos graves e reações adversas por interação medicamentosa13.
O impacto ambiental do descarte incorreto
A Anvisa classifica medicamentos como "Grupo de risco B" — resíduos com potencial de contaminação química. Sobras de automedicação jogadas no lixo comum ou no vaso sanitário chegam ao solo e à água: antimicrobianos descartados incorretamente sobrevivem às estações de tratamento de esgoto e favorecem a seleção de bactérias resistentes, enquanto hormônios (como os de anticoncepcionais) já foram associados a alterações endócrinas em animais aquáticos9. A Lei nº 12.305/2010 estabelece responsabilidade compartilhada entre indústria, consumidor e poder público — o destino correto de sobras e vencidos é um ponto de coleta em farmácias ou postos de saúde, nunca o lixo comum ou a pia9.
Foco odontológico — Anestesiologia e Terapêutica Farmacológica Odontológica
E no consultório odontológico?
No universo odontológico, o hábito mais comum é tomar analgésico ou anti-inflamatório para "aguentar" a dor de dente e adiar a consulta. Segundo o Conselho Federal de Odontologia, isso mascara o sintoma e permite que uma infecção evolua silenciosamente3 — muitos pacientes recorrem a esses medicamentos sem buscar a raiz do problema, deixando cáries profundas, abscessos e periodontites progredirem sem tratamento10. Quando a infecção odontogênica não tratada se dissemina, o quadro pode evoluir para complicações graves, como endocardite bacteriana e sepse10.
Antibiótico "preventivo" antes de extrair um dente — precisa mesmo?
Um levantamento sobre uso profilático de amoxicilina em exodontias de terceiros molares aponta que "não há consenso na literatura sobre os benefícios do uso do antibiótico" nesses casos11. Em cirurgias menos traumáticas, a diferença de infecção entre nenhum antibiótico, dose única e terapia prolongada foi pequena (7%, 2% e 1%, respectivamente) — ou seja, controle rigoroso de assepsia e cuidados pós-operatórios pesam mais do que o antibiótico em si para pacientes jovens, saudáveis (ASA I) e extrações simples feitas por profissional experiente11. Tomar (ou receitar a si mesmo) um antibiótico "por precaução" sem essa avaliação apenas contribui para a seleção de bactérias resistentes11.
Automedicação também atrapalha o pós-operatório
Pacientes que se automedicam antes de procurar o dentista costumam responder pior ao tratamento profissional depois: o controle da dor, da infecção e da inflamação fica mais difícil, e o cirurgião-dentista pode precisar de intervenções mais complexas do que se o paciente tivesse buscado atendimento desde o início10. Enxaguantes bucais usados em excesso por conta própria também têm efeito colateral pouco conhecido: podem desequilibrar a microbiota da boca e favorecer candidíase oral10.
Por isso reforçamos: o cirurgião-dentista tem respaldo legal para prescrever medicamentos voltados ao tratamento bucal e deve ser o primeiro contato diante de qualquer urgência odontológica — não o analgésico da farmácia3.
Como se prevenir — o que fazer antes de tomar qualquer medicamento
- Não tome antibiótico "de sobra" ou indicado por terceiros;
- Não repita uma receita antiga sem reavaliação profissional;
- Leia a bula e respeite a dose e o intervalo indicados — mais remédio não é mais alívio;
- Informe a todo profissional de saúde os medicamentos que já usa, incluindo fitoterápicos e "remédios de farmácia";
- Procure orientação de um médico, dentista ou farmacêutico antes de iniciar qualquer tratamento por conta própria.
O que fazer em caso de uso excessivo ou reação adversa?
Suspenda o uso e procure atendimento imediato caso apresente sinais de reação adversa (inchaço, dificuldade para respirar, sangramento incomum, dor abdominal intensa) ou caso os sintomas persistam por mais de dois dias mesmo com o uso de medicamento. Não existe uma "dose segura" para quem se automedica — o único caminho seguro é a avaliação profissional.
Anestesiologia e Terapêutica Farmacológica Odontológica — 2026
Referências
- Automedicação e seus impactos na saúde pública do Brasil. Research, Society and Development. Disponível em: rsdjournal.org.
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução RDC nº 20, de 5 de maio de 2011 — dispõe sobre o controle de medicamentos à base de substâncias antimicrobianas. Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
- Conselho Federal de Odontologia (CFO). CFO Esclarece: os perigos da automedicação e a importância da orientação aos pacientes odontológicos. Disponível em: website.cfo.org.br.
- Interações medicamentosas na clínica odontológica. Revista Brasileira de Odontologia, v. 70, n. 2. Disponível em: revodonto.bvsalud.org.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Relatório GLASS 2025 sobre resistência antimicrobiana. Disponível em: news.un.org.
- RIBEIRO et al. Os riscos do uso indiscriminado e irracional do paracetamol. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences. Disponível em: bjihs.emnuvens.com.br.
- Anti-inflamatórios não esteroides: efeitos cardiovasculares, cérebro-vasculares e renais. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Disponível em: scielo.br.
- Polifarmácia, automedicação e uso de medicamentos potencialmente inapropriados: causa de intoxicações em idosos. Revista Médica de Minas Gerais. Disponível em: rmmg.org.
- Conselho Federal de Farmácia (CFF). Quais os riscos relacionados ao descarte incorreto de medicamentos? Disponível em: site.cff.org.br.
- Impacto da automedicação no tratamento de problemas odontológicos: revisão de literatura. Disponível em: revistaft.com.br.
- O uso profilático da amoxicilina em exodontias de terceiros molares inclusos. Trabalho de Conclusão de Curso — Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Disponível em: repositorio.ufsc.br.